Exportar muito e importar pouco não gera crescimento e é o caminho para a pobreza

A ideia de “crescimento guiado pelas exportações” não faz sentido

“A economia crescerá conduzida pelas exportações!”, gritam 10 em cada 10 economistas desenvolvimentistas. Isso faz sentido?

Vejamos.

Crescimento e enriquecimento

O que gera crescimento econômico é um aumento na produção. E aumentos na produção requerem, além de investimentos, aumentos na especialização da mão-de-obra. Aumentos na especialização, por sua vez, requerem aumentos no comércio.

Se, por exemplo, você se especializa na produção de rolamentos, você só irá prosperar se houver várias pessoas com quem você possa fazer transações comerciais — não apenas compradores dispostos a adquirir seus rolamentos, mas também vários vendedores dispostos a fornecer a você vários bens e serviços que você poderá comprar com a renda adquirida com seus rolamentos. É exatamente o seu consumo destes bens e serviços o que irá aumentar seu padrão de vida.

Se você produzir e vender cada vez mais rolamentos, mas nunca gastar sua receita em bens de consumo, então você simplesmente estará elevando o padrão de vida de outras pessoas (aquelas que estão adquirindo seus rolamentos), e empobrecendo a si próprio. 

Afinal, você trabalha e trabalha e trabalha, mas não adquire nada em retorno — apenas acumula dinheiro, o qual é inútil se você nunca gastá-lo para adquirir coisas que elevem seu padrão de vida.

As pessoas de um país podem, sim, se tornar mais prósperas ao se especializarem na produção de bens e serviços para então exportá-los para estrangeiros. Porém, esse aumento na produção e exportação fará esses produtores mais prósperos somente se eles gastarem suas receitas, como consumidores, em bens e serviços que importarem de estrangeiros. 

O padrão de vida de um país é determinado pela abundância de bens e serviços. Quanto maior a quantidade de bens e serviços ofertados, e quanto maior a diversidade dessa oferta, maior será o padrão de vida da população. Assim, um povo que exporta mais visando a importar mais irá enriquecer e melhorar seu padrão de vida; já um povo que exporta mais apenas para exportar mais e, com isso, “melhorar sua balança comercial” irá reduzir seu padrão de vida — afinal, ao mandar mais produtos para fora e não trazer mais produtos para dentro, a oferta interna de produtos cairá. Menos produtos no mercado interno implicam direta redução no padrão de vida.

Exportações geram crescimento econômico?

Tendo isso em mente, passemos à pergunta: é possível haver um crescimento econômico guiado pelas exportações? Sim, mas somente se você interpretar corretamente o significado desta expressão.

O crescimento econômico ocorre quando, e apenas quando, há aumentos na quantidade de bens e serviços disponíveis para a população de um país consumir. Quanto mais capazes de consumir, mais ricos os indivíduos são. 

Como Adam Smith e outros já haviam reconhecido, a divisão do trabalho — isto é, a especialização — é limitada pela amplitude do mercado. Quanto maior o mercado, mais profunda é a divisão do trabalho. E quanto mais profunda a divisão do trabalho, maior é a produção total. Logo, dado que o comércio internacional expande o tamanho do mercado, então o comércio internacional aprofunda a divisão do trabalho e, consequentemente, aumenta a produção total.

Disso podemos concluir que maiores oportunidades para se exportar de fato geram vantagens econômicas reais. Mas essas vantagens serão reduzidas, ou até mesmo anuladas, se essas maiores exportações não se traduzirem em maiores importações.

Se exportarmos mais e recebermos, em troca desses produtos exportados, mais bens e serviços importados que valorizamos como itens de consumo — e os quais valorizamos mais do que os produtos nacionais —, então ficamos em melhor situação. “Crescemos” economicamente. Se, no entanto, aumentamos as exportações mas não recebemos em troca mais bens e serviços, então nossa situação em nada melhorou.

O que realmente interessa, portanto, é o que recebemos (em termos de bens de consumo) em troca daquilo que produzimos. 

Assim, se o governo passa a artificialmente incentivar exportações, mas em nada facilita as importações, então o crescimento econômico que ele estará promovendo seria o mesmo de caso ele passasse a promover a produção de “coisas amarelas” ou “coisas retangulares” (para as quais nunca houve demanda). Produzir mais exportações apenas para exportar mais faz tanto sentido quanto produzir mais coisas amarelas ou retangulares apenas para se produzir mais coisas amarelas ou retangulares.

Por isso, não há nada de remotamente especial, ou superior, ou economicamente significante em “crescimento guiado pela exportação”. Todo o crescimento, em última instância, é guiado pela produção — mas somente quando aquilo que é produzido é trocado por bens e serviços a serem consumidos.

(Se, por exemplo, Henry Ford aumentasse a produtividade de sua linha de produção do Modelo T — como ele de fato fez —, mas se recusasse a comprar qualquer bem ou serviço para ele e sua companhia em troca, esse menor custo unitário de produção tornado possível por essa produção em grande escala teria sido totalmente inútil para ele.)

Aproveitar oportunidades para produzir em maior escala será uma vantagem se houver economias de escala e se elas forem conduzidas por demandas de mercado. E um mercado global de fato possui um maior número de oportunidades do que qualquer mercado nacional, por maior que ele seja. No entanto, é sempre crucial ressaltar que qualquer crescimento econômico genuíno que porventura ocorra por esse aumento das exportações será por causa não daquilo que está sendo exportado, mas sim daquilo que está sendo importado.

Conclusão

Em uma economia de mercado, aumentamos nossa capacidade de consumo ao produzirmos maiores quantidades para outros consumirem — outros que, em troca, nos fornecerão aquilo que queremos consumir. Assim, cada um de nós “cresce” economicamente ao produzirmos mais coisas (mensuradas em termos de valor) para nossos parceiros comerciais consumirem, pois só assim nossos parceiros comerciais nos darão aquilo que queremos deles: mais coisas para nós consumirmos.

Assim como um indivíduo não irá prosperar caso entregue os frutos do seu trabalho para outros em troca de meros pedaços de papel (ou dígitos eletrônicos) que ele nunca irá gastar, nenhum grupo de pessoas irá prosperar se seguir essa mesma estratégia insensata.

Exportações são custos. Elas promovem crescimento econômico apenas se, em troca, a população do país exportador receber bens, serviços e ativos que melhorem sua qualidade de vida e sua capacidade de produzir. Qualquer país que insistir em exportar sua produção e, em troca, importar o mínimo possível (adotando tarifas de importação ou mesmo restringindo diretamente várias importações) estará no caminho certo para a pobreza.

Acumular dinheiro (no caso, moeda estrangeira oriunda das exportações) pode ser uma estratégia que eleva a prosperidade — mas apenas se esse dinheiro for gasto. Se ele jamais for gasto, todos os produtos enviados para outros países em troca deste dinheiro serão apenas presentes para os estrangeiros. 

Por isso, qualquer povo que permita que seu governo adote esta política de estimular exportações e restringir importações estará apenas enriquecendo os outros e empobrecendo a si próprio.

Fonte: Instituto Mises Brasil

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